O Ódio que você semeia

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O filme é uma adaptação para o cinema do livro de Angie Thomas, de mesmo nome. Dirigido por George Tilman Jr., o longa conta com a atriz Amanda Stenberg de Jogos Vorazes no papel de Starr Carter. Ela é uma adolescente negra que vive em um bairro negro dominado pelo tráfico de drogas, mas que estuda em uma escola de um bairro branco de classe alta por opção dos pais, que buscam mais segurança para seus filhos. Por conta disso, ela acaba vivendo em dois mundos completamente distintos tentando equilibrar as futilidades da escola com a vida dura e pesada de sua família e vizinhança. Seu pai é um ex-presidiário que conseguiu sair do mundo do crime após um acordo com o líder do tráfico e, desde cedo, ensina os filhos a ter precaução com todos os perigos aos quais os jovens negros daquela localidade estão sujeitos. Tanto por parte da criminalidade quanto por parte da polícia. Tudo se intensifica na vida de Starr quando ela presencia seu amigo de infância ser morto injustamente em uma abordagem policial por segurar uma escova de cabelo que foi confundida com uma arma. Ela é chamada como testemunha para tentar de alguma forma fazer justiça ao seu amigo morto, mas por outro lado isso pode colocar toda a sua família em risco.

O ódio que você semeia discute seriamente a questão do racismo na sociedade de uma forma realista, pois mostra um mundo complexo, sem vilões e mocinhos. De fato, o bairro dela era repleto de criminalidade e boa parte dos jovens negros estavam envolvidos com o tráfico. A população era oprimida pelos próprios negros no crime. Starr já havia presenciado quando criança uma outra amiga ser morta também por tiros, mas dessa vez pela gangue local. O garoto morto não estava fazendo nada errado no momento, mas de fato estava envolvido com o tráfico. Pouco antes de morrer ele confessa a Starr que entrou nesse mundo para ajudar a avó, única parente viva, que estava com câncer e não tinha condições para o tratamento. Por outro lado, vemos a brutalidade da ação policial que julga apenas pela aparência, atira primeiro para perguntar depois. Em uma cena emblemática, Starr está conversando com seu tio policial que tenta justificar as ações de seu colega que matou o jovem. Ele diz que o policial fez o certo, pois é o procedimento. Ela então faz uma pergunta mudando o cenário: a mesmíssima abordagem, o mesmo comportamento do suspeito, só que em um bairro branco e um suspeito branco. O tio acaba assumindo que nesse caso o procedimento não seria atirar; e termina com a frase: “o mundo é complicado”.

O que mais me chamou a atenção no filme foi a falta de empatia de boa parte de seus colegas na escola de bairro nobre. Apesar de viverem perto, eles ignoravam completamente a realidade cruel vivida pelos negros de sua cidade. Aparentemente eles se importavam e até estavam fazendo movimentos em prol do garoto morto, mas Starr percebeu que tudo isso era apenas para matar aula, mas no discurso eles estavam sempre do lado do policial. Julgavam aquilo que eles não entendem. Uma colega acaba dizendo que não entende a revolta pela morte, pois se ele era traficante ia morrer no dia seguinte mesmo. O único que parece se importar é o namorado de Starr, Chris, que não tem medo de ir à casa dela, à vizinhança, ajudar quem precisa e presenciar a miséria e o descaso em que vivem aquelas crianças e aqueles jovens. Logo ele já está ajudando naquilo que pode. Quando vemos de perto o que o outro sofre e seus motivos para agir de determinada forma, nosso julgamento muda.

Quão diferente seria a vida daquelas pessoas se os endinheirados da cidade estivessem envolvidos naquela comunidade para ajudá-los, para dar bolsas de estudo, escolas de qualidade, oportunidades na vida. Certamente o jovem que morreu não estaria envolvido no mundo do crime, nem outros tantos. Mas todos ficavam apenas julgando de longe. É muito fácil olharmos de longe, por notícias na televisão ou vídeos no whatsapp, e afirmarmos quem é bom e quem não é, quem merece morrer ou viver, quem é trabalhador e quem é vagabundo, quem é cidadão de bem e quem não é. A realidade, no entanto é infinitamente mais complexa do que as correntes de rede social. Se queremos compreender minimamente o que acontece, precisamos nos aproximar, conversar, ver o histórico, compreender as motivações, entender como foi a infância e adolescência da pessoa, etc. Ao conhecer mais estaremos nos aproximando do conhecimento que Deus tem sobre essa pessoa ou grupo de pessoas e poderemos amar como Deus ama. Jesus ia ao encontro da multidão miserável ao invés de ficar no sofá obtendo informações por whatsapp, por isso conhecia profundamente cada um e por isso tratava todos com compaixão. Assim devemos ser. Muitos ao nosso lado, em nosso bairro, em nossa cidade sofrem e às vezes por conta disso tomam decisões reprováveis. O que fazemos com relação a isso? Julgamos ou oramos, amamos e ajudamos?

“Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso. Não julguem, e vocês não serão julgados. Não condenem, e não serão condenados. Perdoem, e serão perdoados. Deem, e lhes será dado: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem, também será usada para medir vocês.” (Lucas 6:36-38)

 

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