Sharp objects

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No domingo 26/08, a HBO transmitiu o último capítulo de mais uma ótima série da emissora. Todos os oito episódios de Sharp objects, temporada única, podem ser encontradas no streaming da emissora para os assinantes. A série é baseada no livro de Gillian Flynn e dirigida e produzida por Jean-Marc Valée. Traz no elenco Amy Adams como protagonista, além de outros ótimos atores como Patrícia Clarkson, Eliza Scalen e Matt Craven. Como é comum nas produções da emissora, é uma série sombria que traz questões humanas muito profundas, o que pode fazer a série difícil de ser maratonada. Cada episódio merece uma reflexão particular e por isso precisa ser digerido antes de seguirmos para o próximo. As atuações são excelentes, bem como a caracterização dos personagens e a direção. Recomendo facilmente a todos que gostem de bons dramas ou boas séries policiais.

Sharp objects é uma série que capta os males de uma cidade pequena que vive de relacionamentos aparentes. Em Wind Gap, uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos, as pessoas são falsas, arrogantes e padecem de doenças emocionais e psiquiátricas. Nada disso é tratado, e sim acobertado. Há sempre uma atmosfera sombria, que deixa transparecer algo terrível no passado daquelas pessoas e em seus relacionamentos. Percebemos isso pela ótica da protagonista Camille (Amy Adams), uma jornalista que nasceu e cresceu na cidade, mas se mudou para uma cidade grande e agora precisa voltar para cobrir o caso de um potencial serial killer que tem meninas adolescentes como vítimas. Mas Camille, que volta a contragosto, possui inúmeros traumas com a cidade e sua família, e terá que lidar com esses problemas para conseguir a matéria. Vemos, por exemplo, já no primeiro episódio, que Camille usa apenas roupas compridas porque possui o corpo inteiramente marcado por cortes que se autoinfligiu no passado por conta de sua condição psiquiátrica. A continuação da série revela o porquê de seus problemas: a sua família e toda a cidade sempre foi enferma. A série é uma experiência antropológica, e por isso está repleta de temas a serem abordados e estudados, como a dinâmica das aparências, as relações de poder, a tradição, o racismo, o machismo e o preconceito de vários tipos; os relacionamentos entre os sexos, as diferenças entre cidade grande e cidade pequena, a problemática das doenças psiquiátricas não tratadas; entre outros problemas.

Entre tantos possíveis temas que podem ser abordados, destaco aqui a questão da omissão. Wind Gap é uma cidade repleta de problemas passados e presentes, como preconceitos, crianças carregando armas, adolescentes usuários de drogas, agressões, estupros e assassinatos. Além disso, há uma grande desigualdade social, com crianças filhos de alcoólatras deixadas à própria sorte. Na maioria dos casos, fica evidente que muitos sabem quem são os culpados e podem pôr um fim nisso, mas optam pela omissão para não se comprometerem e perderem “pontos sociais” com os demais habitantes da cidade. A chegada de forasteiros acaba sendo um problema para toda a comunidade, pois podem pôr a perder esse “pacto social” entre os moradores de não se intrometerem na vida dos outros, mesmo que pessoas estejam sendo mortas e torturadas em seu dia a dia.

Os homens da cidade são extremamente omissos. Teriam o poder para impedir algumas injustiças praticadas por mulheres ou por outros homens, mas preferem não se envolver. O próprio xerife é omisso, pois tem medo de perder o emprego. A cidade possui uma dona, a mãe da protagonista, nascida em uma família rica dona do matadouro de porcos. Todos se curvam aos seus caprichos, inclusive seu marido, que percebe seus graves problemas psiquiátricos e psicológicos e nada faz. Ele vê constantemente as filhas serem torturadas, mas prefere não se indispor. As mulheres também percebem os problemas e algumas até sabem quem são os culpados, mas, com a desculpa de que não podem fazer nada, preferem fofocar e apenas falar sobre os outros à distância. São os forasteiros que acabam resolvendo os mistérios e salvando quem ainda era possível salvar. Os habitantes da cidade continuariam passivos.

A Bíblia afirma que devemos fazer o bem em todo o tempo (Gálatas 6:9), e que é um erro deixar de fazer o bem quando podemos. Isso inclui se envolver com os problemas da cidade e buscar soluções, mesmo que em alguns casos precisemos entrar na intimidade dos outros. A família rica da série poderia contribuir com seu patrimônio de alguma forma pra o desenvolvimento da cidade e seus habitantes. O xerife poderia fazer uma investigação de verdade para resolver o crime em vez de apenas criar conjecturas de que os crimes foram praticados por mexicanos ou por alguém da camada mais pobre da população. O marido poderia impedir a esposa de torturar a filha e prejudicar a cidade. Os moradores poderiam contar para os investigadores o que sabiam. Os adultos que foram vítimas de abusos quando jovens poderiam fazer uma denúncia para que nada assim ocorresse novamente na cidade, e assim por diante.

Lembro de um caso real atual aqui no Brasil em que todos os vizinhos ouviram uma mulher gritando por socorro sendo espancada, e alguns até viram as imagens na câmera de segurança e nada fizeram. Resultado: a mulher foi assassinada de forma brutal pelo marido. Será que podemos ser omissos com a desculpa de que “não temos como resolver esses problemas sociais complexos” ou “não podemos nos meter na vida dos outros” ou “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” ou “podemos sair prejudicados se resolvermos cuidar de problemas que não são nossos”? Sim, podemos sair prejudicados, mas estaremos lutando para fazer o bem e livrar pessoas do mal, da injustiça, da violência e da opressão. Jesus Cristo viveu assim, se meteu nas questões injustas de seu tempo. E o que ele ganhou? Morte de cruz. Mas ressuscitou e está glorificado. Eu sou seguidor dele e preciso levar a minha cruz. Não posso me omitir para viver uma vida que busque apenas o meu próprio bem e da minha família. O meu desejo é que você nunca se omita de fazer o bem.

Portanto, comete pecado a pessoa que sabe fazer o bem e não faz. (Tiago 4:17)

 

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