Poderia me perdoar?

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O longa baseado em uma história real traz Melissa McCarthy realizando um ótimo trabalho que lhe rendeu indicação ao Oscar, atuando fora do gênero comédia, como estamos acostumados a ver. Ela interpreta a escritora Lee Israel, uma mulher acima dos cinquenta anos na década de noventa, escritora falida de biografias, de difícil temperamento e solitária. É um filme muito bem feito, que concilia muito bem situações de tensão, situações dramáticas e momentos bem-humorados. Acerta em focar a personalidade de Lee, suas motivações e conflitos muito mais do que o crime por ela praticado.

Lee não possui amigos, não nutriu vínculos profissionais, mora sozinha com a gata e se encontra em um sério problema financeiro, sem emprego, sem contrato com sua editora, quase sendo despejada do prédio onde morou a vida inteira. Ela sabe que tem talento e muitos leitores ainda a admiram, porém a falta de confiança em si mesma e o medo de críticas a levaram sempre a escrever biografias de personalidades sem nunca ter publicado textos literários próprios. A tensão se acentua quando sua gata já idosa fica doente e ela não tem sequer os recursos para comprar o medicamento. Ela então começa a se desfazer de objetos próprios, como alguns documentos de personalidades dedicados a ela e assinados. Percebe então que existe um comércio muito lucrativo envolvendo documentação e cartas de personalidades. Ela também encontra sem querer, em meio a livros da biblioteca, outras cartas de personalidades, mas resolve adulterá-las acrescentando linhas com temáticas mais interessantes para aumentar o preço da venda do documento. Surge aí então a ideia de falsificar documentos para lucrar.

Aos poucos, Lee desenvolve técnicas de falsificação de assinatura e de envelhecimento de documentos que tornar os documentos difíceis de serem distinguidos dos reais até mesmo por peritos. Ele acaba se dando conta de que não está fazendo isso apenas pelo dinheiro, mas para que outros possam ler e admirar seus textos, uma vez que as criações de cartas e acréscimos eram invenções próprias e agradavam a todos que tinham contato com esses documentos. Pela primeira vez ela se sente valorizada por algo próprio. A sua autoconfiança aumenta tanto nesse período, que ela acaba fazendo uma amizade, Jack Hock (Richard E. Grant), que lhe serve de amparo emocional e a auxilia nos golpes. Com o tempo, suas falcatruas acabam sendo descobertas e todo o esquema desmorona.

Em seu discurso no tribunal, Lee afirma que apesar de lamentar por todos os que foram enganados e de ter certeza de que nunca mais faria algo assim, não se arrepende do que escreveu nos documentos, pois isso lhe deu pela primeira vez a felicidade de estar fazendo algo que gosta e de estar sendo admirada. Como é conhecido, ela então resolve escrever um livro contando os bastidores de sua trapaça, revelando que muitos documentos que ainda estavam sendo vendidos como originais eram na verdade falsificações. O livro se torna um sucesso.

Podemos falar sobre a questão da mentira, que é óbvia nesse filme. A mentira se torna a maneira de ganhar dinheiro e ser reconhecida. Porém prejudica muita gente que confiou nela e gera muito sofrimento para todos. Ela se afasta mais ainda de amigos e de potenciais relacionamentos, fica desacreditada, vê sua reputação arruinada e faz muitas pessoas e muitas lojas perderem dinheiro. Por mais atraente que seja em um primeiro momento, a mentira sempre trará sofrimento de alguma forma. No entanto, o que mais foi destacado no longa não foi o golpe em si, mas a falta de maturidade emocional de Lee, uma mulher de extremo talento que não consegue exercê-lo por conta da própria insegurança. Não consegue se abrir a pessoas para não ser julgada, assim como não consegue escrever o que tem em mente com medo de ser criticada. Por vezes ela senta em frente à máquina de escrever mas não consegue desenvolver nada. Não por falta de inspiração e criatividade, mas por medo de se abrir aos outros por meio de seus textos. Nos documentos falsos não haveria essa possibilidade, pois a crítica iria para a celebridade, morta ou não, e não para ela. Demora muito para ela ter consciência disso.

A insegurança tem o poder de nos paralisar e roubar o que temos de melhor. A vida de Lee era péssima porque não se abria a nada e nem a ninguém por medo das críticas. Isso mostra que por trás da insegurança sempre caminha o orgulho. É muito fácil pensarmos que é melhor não terem opinião nenhuma sobre nós do que ter uma opinião negativa. Pode até ser verdade em algum momento, mas absolutamente tudo o que fazemos e falamos está sujeito a crítica. Pensando assim, é melhor se trancar em um quarto e viver sozinho para sempre. Parece ser o que ela queria fazer. Não é bom, não é saudável, mas principalmente não é o que Deus tem para nós. Ele nos deu dons e talentos para exercermos, nos deu um mundo para vivermos, cultivarmos e, após Cristo, pregarmos sua palavra. Ele quer usar nossa vida. Se deixarmos a insegurança nos dominar, não cumprimos nosso papel nem como seres humanos nem como cristãos. Deixe o orgulho de lado, o que importa de verdade é o que Deus pensa de você. Se a sua conduta está correta, se preocupe em agradar a Deus. Viva a vida plena, sem medo. Se a crítica negativa for verdadeira, podemos mudar e crescer muito; se não for, não pode tirar o nosso foco. Que tenhamos mais coragem!

“Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio.”(2 Timóteo 1:7)

“[…] eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.”(João 10:10b)

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