Cafarnaum

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Cafarnaum é um filme de impacto, feito para causar grande desconforto no expectador. A miséria dos personagens é explorada de uma forma crua, sem excessos melodramáticos como música ou choro. A obra é uma ficção que aborda situações reais de crianças abandonadas, famílias indigentes, imigrantes ilegais, tráfico de pessoas, pobreza extrema. A desgraça está na própria realidade e, ao vivenciar pelo menos um pouco o dia a dia dos personagens, percebemos como somos privilegiados e como o mundo pode ser um lugar horrível.

A narrativa se concentra em Zain, um garoto do Líbano que vive amontoado com sua família em uma espécie de cortiço onde acaba, com sua esperteza e malandragem, cuidando dos irmãos. O pai não tem emprego e a mãe sobrevive de golpes e tráfico de drogas para dentro do presídio onde tem parentes. É obrigado a trabalhar em uma venda e não frequenta escola. Sobrevive de restos de comida e de macarrão instantâneo cru que ele rouba continuamente de seu trabalho. Com o tempo, percebemos que ele sequer possui documentos ou registro, obrigatórios para quem quer ter algum tipo de matrícula legal. Quando ele pede para estudar, o único argumento possível que a mãe usa para convencer o pai é o de que a família ganharia uma espécie de bolsa se ele estivesse na escola. Mas não há tempo, algo acontece. Sua irmã de 12 anos é pega menstruando pela primeira vez e é obrigada a casar com o filho do dono da venda onde ele trabalha. Ao não suportar a situação de ver a irmã indo embora carregada à força, Zain foge de casa e passa a viver inúmeras aventuras em busca de uma vida melhor.

(Parágrafo com spoilers)

Zain, após muitas dificuldades, é acolhido por uma imigrante ilegal africana em um barraco de uma favela. Lá, ela pede para que ele cuide de seu filho bebê durante o dia enquanto ela trabalha. Assim, ele pode viver como parte da família e se alimentar do que ela conseguir trabalhando. A vida da mãe do bebê é um drama por si só. Foi enviada ao Líbano por sua mãe para ser prostituta, porém engravidou e resolveu sair para ter uma vida que pudesse trazer algum bem-estar a seu filho. Consegue permanecer no país comprando temporariamente identidades falsas de um homem que quer a todo custo comprar seu filho. Porém, em determinado dia, ela não volta porque foi presa e Zain, sem saber de nada, terá que se virar para cuidar do bebê e de si próprio. Em determinado momento se depara com refugiados sírios que são tratados de forma melhor do que ele, pois terem status de refugiados. Depois de muito sofrimento, ele acaba cedendo o bebê para o homem que tanto o quer, em troca de uma possibilidade de sair do país em busca de uma vida melhor. Para isso, ele precisa de seus documentos, o que o faz voltar a casa dos pais para procurá-los. Assim, ele descobre que não possui nenhum registro, bem como sua família inteira, e que sua irmã morreu de hemorragia na gravidez, morreu em frente ao hospital porque não possuía documentos para ser atendida. Em um surto de raiva, Zain sai correndo e esfaqueia o marido da irmã, o que o leva à prisão juvenil. O filme se inicia em um julgamento com Zain tentando processar seus pais. Depois de toda a história entendemos que na prisão ele recorreu a um programa de televisão para levar os pais ao tribunal. Ele os quer processar porque nasceu. Na verdade, sua mãe está grávida e ele não quer mais que os pais tenham filhos para viver como ele e sua irmã.

O sofrimento é imenso e as situações que narrei resumidamente aqui são poucas se comparadas a tudo o que podemos ver nas telas. Presenciamos uma realidade onde pessoas são vistas como animais e coisas. São mercadorias trocadas por comida, são seres colocados no mundo para trabalhar e gerar mais dinheiro. O choro do pai de Zain ao constatar que a família não possui documentos é comovente, mostra que para a sociedade eles não são ninguém, são bichos. Essa cultura é mantida pelos próprios miseráveis, que a passam adiante para as gerações seguintes. Porém, nesse ponto vemos uma quebra de paradigma. O longa estaria sugerindo que as novas gerações possuem o poder de mudança e não querem mais se adequar a essas regras. Zain não aceita a cultura dos pais e os processa. A mãe do bebê foi enviada pela própria mãe para ser prostituta, mas não aceita essa vida e busca condições melhores para seu filho, para que nada do que aconteceu com ela se repita com ele. É justamente essa consciência do que está errado, do que poderia ser e não é, que causa tanto sofrimento nesses personagens principais. Os demais sofrem pela carência, sofrem pela pobreza, sofrem sem saber o motivo e não refletem. Conhecimento traz sofrimento, mas traz também a possibilidade de mudança. Há no filme, de certa forma, alguma redenção, possível por conta das atitudes dos personagens de não aceitação da realidade.

Temos em mãos a possibilidade de questionar nossa cultura, nosso passado e buscar soluções para que os problemas e injustiças não se repitam. Vivemos em um país extremamente pobre. Em quantos momentos no filme eu me vi pensando que aqui acontecem coisas muito parecidas… O longa pouco mostra sobre a classe dominante, evidencia apenas os miseráveis explorando miseráveis. No entanto, sabemos que se há miseráveis há pessoas que lucram com a miséria. Isso deve nos incomodar. É impossível não sair refletindo. Se houvesse algum programa de governo que ajudasse crianças nessa situação, a vida de Zain seria diferente? Se por acaso alguma instituição ou igreja voluntária estivesse em seu bairro fazendo trabalho social, providenciando educação, alimento, cuidados básicos, documentação, etc., a vida de Zain seria diferente? Não podemos mudar uma sociedade inteira, mas podemos influenciar diretamente a vida de indivíduos, quando nos importamos e buscamos destruir as barreiras da miséria com o evangelho. Há apenas uma aparição de cristãos no filme, quando católicos vão cantar na prisão. Percebe-se o quanto isso é saudável e edificante para os presos. Imagina se a igreja estivesse atuando em todas as áreas da sociedade. Pensei também que seria exatamente entre essas pessoas que Jesus estaria, pois era esse seu costume, andar entre pobres, entre pessoas vistas como indigentes (João 13:15). Ver um filme impactante e chorar é fácil. Mas o que estamos fazendo de fato, pessoalmente, para eliminar a miséria de nosso país?

“Aquele que oprime o pobre com isso despreza o seu Criador, mas quem ao necessitado trata com bondade honra a Deus.” (Provérbios 14:31)

“O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?” (Isaías 58:6,7)

“’Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’. O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Não existe mandamento maior do que estes”.(Marcos 12:30,31)

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